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N
omes
de Brasileiros e corações...
Nas raras horas de
folga, em minha residência médica no Instituto "Dante
Pazzanese" de cardiologia (SP), eu e um seleto amigo e grande
médico de Uberaba, Luiz Antônio Rezende, costumávamos
sentar no salão de atendimentos ambulatoriais, bem "junto
ao povo" ( sem demagogias...).
O
"Dante", com o carinho de quem o conhece, é um
hospital totalmente voltado a cardiologia. Seu ambulatório
é formado por cinco corredores, naturalmente numerado de
01 a 05. Cada corredor atende a uma determinada patologia, considerando
as mais freqüentes das que acometem o coração.
Corredor 01: congênitos (que já nascem com a doença);
02: valvulopatias (doença nas válvulas); 03: miocardiopatias
(doenças do músculo do coração, como
a vergonhosa Doença de Chagas, por exemplo); 04: hipertensão
arterial e 05: doenças coronarianas, caso não esteja
me traindo a memória ! Pois ali compreendi que os brasileiros
recebem seus nomes de acordo com a época em que nasceram,
a classe sócio –econômica à qual pertencem
e até com os modismos da ocasião. Meu próprio
nome, segundo minha genitora, foi-me dado por minha madrinha em
função de uma novela de televisão! A ela muito
agradeço, pois minha avó paterna gostaria que me chamasse,
pasmem, Rogério! Peço desculpas aos Rogérios
que por acaso leiam estas bobagens; nada pessoal. Apenas não
associo, de nenhuma forma, o meu “fácies” com
tão pomposo nome. É de se admirar a quantidade de
garotos e garotas, pouco favorecidos economicamente, que estão
recebendo nomes estranhíssimos... por fonemas: “Maikou”,
“Shhyrrlley”, “Klleydsomw”, “Dayannie”
etc. Há um inacreditável fascínio pelas letras
Y,W,K e L. Duplo. Mas, voltando ao “Dante”, todos nós
dirigíamos a um microfone e anunciávamos por caixas
de som o nome dos pacientes e os respectivos corredores onde deveriam
ser atendidos. A minha diversão e de meu parceiro era então
acertarmos o corredor e conseqüentemente a doença do
paciente logo que ouvíssemos seus nomes, antes mesmo da divulgação
dos benditos corredores... – Carlos Manoel Lyra, dizia a voz
distorcida no aparelho de som : “ coronárias”,
dizíamos nós ! – Josefino dos Santos, “miocárdio
, parceiro” ( doenças do músculo do coração).
– Alberto Souza, , “hipertensão, alagoano”.
– Pedro da Silva, “doenças das válvulas,
Uberabinha”. – Kelly Diwoneyka, “cardiopatia congênita,
irmão”. Nosso acerto era quase 100%!
Ultimamente deparei-me com um nome e logo me chamou à atenção
, lembrando-me o “corredor” de nº 05 : Daiane dos
Santos. Ocorreu-me seria um dos bebês que a sorte lhe trouxe
o coração anômalo já ao nascimento?
Outro dia eu vi na TV e percebi o meu engano: uma negra baixinha,
muito forte, com feições tipicamente negras. Nariz,
nariz! Dentes invejáveis. Um sorriso tão largo quanto
uma fatia de melão e bem alvinho. Não, não
é ninguém com cardiopatia congênita. Certamente
é uma gaúcha pobre, porém. E as imagens mostravam
uma maneira estranha, rápida e nunca vista de jogar-se ao
ar, a partir do solo, dando saltos mortais e imortais. Firme e elegante.
“Pirueta”. “Bunda-canastra” do Brasil. Única
Brasileira a receber medalha de ouro em uma competição
MUNDIAL que existe a mais de 100 anos! Suas declarações
foram todas com alegria e falando no plural, valorizando o coletivo.
Só era o que faltava para minhas lágrimas. Negra linda!
Coração saudável brasileiro, que aperta o nosso
coração de tanto orgulho. Mas depois , solta devagarzinho,
beija com sorriso de melão e cura nossa cardiopatia. Ainda
que por instantes...
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